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Os
Sacramentos em Geral
por
Dr. Louis Berkhof
A.
Relação Entre a Palavra e os Sacramentos.
Em distinção da
Igreja Católica Romana, as igrejas da Reforma salientam a
prioridade da Palavra de Deus. Enquanto aquela parte do pressupostos de que os
sacramentos contêm tudo que é necessário para a salvação dos
pecadores, não precisam de interpretação e, portanto, tornam a Palavra
completamente supérflua como meio de graça, estas consideram a Palavra como
absolutamente essencial, e apenas levantam a questão, por que se lhe deve
acrescentar os sacramentos. Alguns luteranos alegam que uma graça específica,
diferente da que é produzida pela Palavra é
transmitida pelos sacramentos. Isso é quase universalmente negado pelos
reformados (calvinistas), uns poucos teólogos escoceses e o doutor Kuyper
formando exceções à regra. Eles assinalam o fato de que Deus
criou o homem de tal maneira, que ele obtém conhecimento particularmente pelas
avenidas dos sentidos da visão e da audição. A Palavra está adaptada aos ouvidos
e os sacramentos aos olhos. E, desde que os olhos são mais sensíveis que os
ouvidos, pode-se dizer que Deus, ao acrescentar os sacramentos à Palavra, vem
em auxílio do pecador.
A verdade dirigida aos ouvidos através da Palavra está representada simbolicamente
nos sacramentos para os olhos. Deve-se ter em mente,
porém, que, enquanto a Palavra pode existir e também é completa sem os
sacramentos, os sacramentos nunca são completos sem a Palavra. Há
pontos de semelhança e de diferença entre a Palavra e os sacramentos.
1.PONTOS DE SEMELHANÇA. Eles concordam: (a) no autor, visto que Deus mesmo
instituiu ambos como meio de graça; (b) no conteúdo, pois Cristo é o conteúdo
central tanto da Palavra como dos sacramentos; e (c) na maneira pela qual o
conteúdo é assimilado, isto é, pela fé. Esta constitui o único modo pelo qual o
pecador pode tornar-se participante
da graça oferecida na Palavra e nos sacramentos.
2.
PONTOS DE DIFERENÇA. Eles diferem: (a) em sua necessidade, sendo que a
Palavra é indispensável, ao passo que os sacramentos não; (b) em seu propósito,
desde que a Palavra visa a gerar e a fortalecer a fé, enquanto que os
sacramentos servem somente para fortalecê-la; e (c) em sua extensão, visto que
a Palavra vai pelo mundo inteiro, ao passo que os sacramentos só são
ministrados aos que estão na igreja.
[b]B. Origem e Sentido da Palavra “Sacramento”. [/b]
A palavra
“sacramento” não se encontra na Escritura. É derivada do termo latino sacramentum
, que originariamente denotava uma soma de dinheiro depositada por duas
partes em litígio. Após a decisão da corte, o dinheiro da parte vencedora era
devolvido, enquanto que a da perdedora era confiscada. Ao que parece, isto era
chamadosacramentum porque objetivava
ser uma espécie de oferenda propiciatória aos deuses. A transição para o uso
cristão do termo deve ser procurada: (a) no uso militar do termo,
em que denotava o juramento pelo qual um soldado prometia solenemente
obediência ao seu comandante, visto que no batismo o cristão promete
obediência ao seu Senhor; e (b) no sentido especificamente religioso
que o termo adquiriu quando a Vulgata o empregou para traduzir o grego mysterion
.
É possível que este vocábulo grego fosse aplicado aos sacramentos por terem
eles uma tênue semelhança com alguns dos mistérios das religiões gregas. Na
Igreja Primitiva a palavra “sacramento” era empregada primeiramente para
denotar todas as espécies de doutrinas e ordenanças.
Por esta mesma razão, alguns se opuseram ao nome e preferiam falar em “sinais”
ou “mistérios”. Mesmo durante e imediatamente após a Reforma, muitos não
gostavam do nome “sacramento”. Melanchton empregava “signi” , e tanto
Lutero como Calvino achavam necessário chamar a atenção para o fato de que a
palavra “sacramento” não é empregada em seu sentido original na teologia. Mas o
fato de que a palavra não se encontra na Escritura e de que não é utilizada em
seu sentido original quando aplicada às ordenanças instituídas por Jesus, não
tem por que
dissuadir-nos, pois muitas vezes o uso determina o sentido de uma palavra. Pode-se
dar a seguinte definição de sacramento: Sacramento é uma santa ordenança
instituída por Cristo, na qual, mediante sinais perceptíveis, a graça de Deus
em Cristo e os benefícios da aliança da graça são representados, selados e
aplicados aos crentes, e estes, por sua vez, expressam sua fé e sua fidelidade
a Deus.
C.
Partes Componentes do Sacramento.
Devemos distinguir
três partes nos sacramentos.
1.O SINAL EXTERNO OU
VISÍVEL. Cada sacramento contém um elemento
material, palpável aos sentidos. Num sentido bem livre, este elemento
às vezes é chamado sacramento. Contudo, no sentido estrito da palavra,
o termo é mais inclusivo e denota o sinal e aquilo que é significado ou
simbolizado.
Para evitar mal-entendido, deve-se ter em mente este uso diferente. Isto
explica por que se pode dizer que um descrente pode receber, e, todavia, não
receber o sacramento. Não o recebe no sentido pelo da palavra. O objeto externo
do sacramento inclui, não somente os elementos que se usam, a saber, água, pão
e vinho, mas também o rito sagrado, aquilo que se faz com estes elementos.
Segundo este ponto de vista externo, a Bíblia denomina os sacramentos sinais e
selos, Gn 9.12, 13; 17.11; Rm 4.11.
2.A GRAÇA ESPIRITUAL
INTERNA, SIGNIFICADA E SELADA. Os sinais e selos pressupõem algo que é
significado e selado e que geralmente é chamado matéria interna do
sacramento. Esta é variadamente indicada na Escritura como aliança
da graça, Gn 9.12, 13; 17.11, justiça da fé, Rm 4.11, perdão dos pecados, Mc
1.4: Mt 26.28, fé e conversão, Mc 1.4; 16.16, comunhão com Cristo em Sua morte
e ressurreição, Rm 6.3, e assim por diante. Declarada resumidamente, pode-se
dizer que consiste de Cristo e todas as Suas riquezas espirituais. Os católicos
romanos a vêem na graça
santificante acrescentada à natureza humana, capacitando o homem a
praticar boas obras e a subir às alturas da visio Dei (visão de Deus).
Os sacramentos não significam meramente uma verdade geral, mas uma promessa
dada a nós e por nós aceita, e servem para fortalecer a nossa fé com respeito à
realização dessa promessa, Gn 17.1-14; Ex 12.13; Rm 4.11-13. eles representam
visivelmente e aprofundam a nossa consciência das bênçãos espirituais da
aliança, da purificação dos nossos pecados e da nossa participação na vida que
há em Cristo, Mt13.11; Mc 1.4, 5; 1 Co 10.2, 3, 16, 17; Rm 2.28, 29; 6.3, 4; Gl
3.27.
como sinais e selos, eles são meios de graça, isto é, meios pelos quais
se fortalece a graça interna produzida no coração pelo Espírito Santo.
3. UNIÃO SACRAMENTAL ENTRE O SINAL E QUILO QUE É SIGNIFICADO. Geralmente se lhe
chama forma sacramenti , forma dos sacramentos ( forma
significando aqui essência), porque é exatamente a relação entre o sinal e a
coisa significada que constitui a essência do sacramento.
Segundo o conceito reformado (calvinista), esta (a) não é física , como
pretendem os católicos romanos, como se a coisa significada fosse inerente ao
sinal e o recebimento da matéria externa incluísse necessariamente a
participação na matéria interna ;
(b) nem local, como a descrevem os luteranos, como se o sinal e a coisa
significada estivessem presentes no mesmo espaço, de sorte que tanto os
crentes como os incrédulos recebessem o sacramento completo ao receberem o
sinal; (c) mas espiritual , ou como o expressa Turretino, moral e
relativa ,
de modo que, quando o sacramento é recebido com fé, a graça de Deus o
acompanha. Conforme este conceito, o sinal externo torna-se um meio
empregado pelo Espírito Santo na comunicação da graça divina. A
estreita relação existente entre o sinal e a coisa significada explica o
emprego daquilo que geralmente se chama “linguagem sacramental”, na qual o
sinal é mencionado em lugar da coisa significada, ou vice-versa , Gn
17.10; At 22.16; 1 Co 5.7. <blockquote><blockquote>
</blockquote></blockquote>
D. Necessidade dos Sacramentos.
Os
católicos romanos afirmam que o batismo é absolutamente necessário para
todos, para a salvação, e que o sacramento da penitência é igualmente
necessário
para aqueles que cometeram pecado mortal depois do batismo; mas que a
confirmação, a eucaristia e a extrema unção são necessárias somente no
sentido de que foram ordenadas e são eminentemente úteis.
Por outro lado, os protestantes ensinam que os sacramentos não são
absolutamente necessários para a salvação, mas são obrigatórios em
vista
do preceito divino. A negligência voluntária do seu uso redunda no
empobrecimento espiritual e tem tendência destrutiva, precisamente
como
acontece com toda desobediência persistente a Deus. Que não são
absolutamente necessários para a salvação, segue-se: (1) do caráter
espiritual e livre da dispensação do Evangelho, na qual Deus não prende
a Sua graça ao uso de certas formas externas, Jo 4.21, 23; Lc 18.14;
(2)
do fato de que a Escritura menciona unicamente a fé como condição
instrumental da salvação, Jo 5.24; 6.29; 3.36; At 16.31; (3) do fato de
que os sacramentos não originam a fé, mas a pressupõem, e são
ministrados onde se supõe a existência da fé, At 2.41; 16.14, 15, 30,
33; 1 Co 11.23-32; e (4) do fato de que muitos foram realmente salvos
sem o uso dos sacramentos. Pensemos nos crentes anteriores ao tempo de
Abraão e no ladrão penitente na cruz.
E. Os Sacramentos do Velho e do Novo Testamentos Comparados.
1. SUA UNIDADE ESSENCIAL. Roma alega que há diferença essencial
entre
os sacramentos do Velho Testamento e os do Novo. Ela afirma que, à
semelhança de todo o ritual da antiga aliança, seus sacramentos
também eram meramente típicos. A santificação produzida por eles não
era interna, mas apenas legal, e prefigurava a graça que haveria de ser
conferida ao homem no futuro, em virtude da paixão de Cristo. Isso não
significa que nenhuma graça interna acompanhava o uso deles, mas
simplesmente
que isso não era efetuado pelo sacramento propriamente ditos, como
acontece na nova dispensação. Eles não tinham eficácia objetiva, não
santificavam o participante ex opere operato , mas unicamente ex opere operantis ,
isto é, por causa da fé e caridade com que eram recebidos. Uma vez que
a plena concretização da graça tipificada por aqueles sacramentos
dependia da vinda de Cristo, os santos do Velho Testamento foram
encerrados no Limbus Patrum (Limbo dos Pais) até Cristo os
tirar de lá. A verdade, porém, é que não há diferença entre os
sacramentos do Velho Testamento e os do Novo. Provam-no as seguintes
considerações; (a) em 1 Co 10.1-4 Paulo atribui à igreja do Velho
Testamento aquilo que é essencial nos sacramentos do Novo testamento;
(b) em Rm 4.11 ele fala da circuncisão de Abraão como selo da justiça
da fé; e (c) em vista do fato de que eles representam as mesmas
realidades
espirituais, os nomes dos sacramentos de ambas as dispensações são
utilizados uns pelos outros: a circuncisão e a páscoa são atribuídas à
igreja do Novo Testamento, 1 Co 5.7; Cl 2.11, e o batismo e a Ceia do
Senhor à igreja do Velho Testamento, 1 Co 10.1-4.
2.SUAS DIFERENÇAS FORMAIS. Não obstante a unidade essencial dos
sacramentos das duas dispensações, há certos pontos de diferença. (a)
Em Israel os sacramentos tinham um aspecto nacional em acréscimo à sua
significação
espiritual como sinais e selos da aliança grega. (b) Ao lado dos
sacramentos, Israel tinha muitos outros ritos simbólicos, tais como as
ofertas e as purificações, que no essencial concordavam com os seus
sacramentos, ao passo que os sacramentos do Novo Testamento estão
absolutamente sós. (c) Os sacramentos do Velho Testamento apontavam
para Cristo no futuro, e eram os selos da graça que ainda teriam que
ser merecidas, ao passo que os do Novo testamento apontam para Cristo
no passado e o Seu sacrifício de redenção já consumado. (d) Em harmonia
com o conteúdo total da dispensação do Velho Testamento, a porção da
graça divina que acompanhava o uso dos sacramentos do Velho Testamento
era menor do que a que atualmente se obtém mediante o confiante recebimento dos sacramentos do Novo Testamento.
F. Número dos Sacramentos.
1.NO VELHO TESTAMENTO. Durante a antiga dispensação havia dois
sacramentos, quais sejam, a circuncisão e a páscoa. Alguns teólogos
reformados (calvinistas) eram de opinião que a circuncisão originou-se
em
Israel e foi auferido deste povo da aliança por outras nações. Mas
agora é patentemente claro que esta posição é insustentável. Desde os
tempos mais primitivos, os sacerdotes egípcios eram circuncidados. Além
disso, a prática da circuncisão se acha em muitos povos da Ásia, da
África e até da Austrália, e é muito improvável que todos a tenham
derivado de Israel. Todavia, somente em Israel ela se tornou um
sacramento da aliança da graça. Como pertencente à dispensação do Velho
Testamento,
era um sacrifício cruento, simbolizando a excisão da culpa e da
corrupção do pecado, e constrangendo as pessoas a deixarem que o
princípio da graça de Deus penetrasse suas vidas completamente. A
páscoa também era um sacrifício cruento. Os israelitas escaparam do
destino dos egípcios com sua substituição por um sacrifício, que foi um
tipo de Cristo, Jo 1.29, 36; 1 Co 5.7. A família salva comeu o cordeiro
que fora imolado, simbolizando assim um ato assimilativo de fé, muito
parecido com o ato de comer o pão na Ceia do Senhor.
2. NO NOVO TESTAMENTO. A igreja do Novo Testamento também tem dois
sacramentos a saber, o batismo e a Ceia do Senhor. Em harmonia com a
nova
dispensação em seu conjunto global, eles são sacramentos incruentos.
Contudo, simbolizam as mesmas bênçãos espirituais que eram
simbolizadas pela circuncisão e pela páscoa na antiga dispensação. A
igreja de Roma aumentou para sete o número dos sacramentos de maneira
totalmente infundada. Aos dois que foram instituídos por Cristo ela
acrescentou
a confirmação, a penitência, a ordenação, o matrimônio e a extrema
unção. Ela procura base bíblica para a confirmação em At 8.17;
14.22; 19.6; Hb 6.2; para a penitência em Tg 5.16; para a ordenação em
1
Tm 4.14; 2 Tm 1.6; para o matrimônio em Ef 5.32; e para a extrema unção
em Mc 6.13; Tg 5.14. Pressupõe-se que cada um destes sacramentos
comunica, em acréscimo à graça geral da santificação, uma graça
sacramental especial, diferente em cada sacramento. Esta multiplicação
dos sacramentos criou uma dificuldade para a igreja de Roma. Geralmente
se admite que, para serem válidos, precisam ter sido instituídos por
Cristo;
mas Cristo instituiu apenas dois. Conseqüentemente, ou os outros não
são sacramentos, ou o direito de instituí-los terá que ser atribuído
aos apóstolos também. Na verdade, antes do Concílio de Trento, muitos
asseveravam que os cinco adicionais não foram instituídos diretamente
por Cristo, mas por meio dos apóstolos.
Todavia, aquele concílio declarou ousadamente que todos os sete
sacramentos
foram instituídos pessoalmente por Cristo, e, desse modo, impôs à
teologia da sua igreja uma tarefa impossível. É um ponto que
tem que ser aceito pelos católicos romanos com base no testemunho da
igreja, mas que não de vê ser comprovado.
Os
Sacramentos em Geral
por
Dr. Louis Berkhof
A.
Relação Entre a Palavra e os Sacramentos.
Em distinção da
Igreja Católica Romana, as igrejas da Reforma salientam a
prioridade da Palavra de Deus. Enquanto aquela parte do pressupostos de que os
sacramentos contêm tudo que é necessário para a salvação dos
pecadores, não precisam de interpretação e, portanto, tornam a Palavra
completamente supérflua como meio de graça, estas consideram a Palavra como
absolutamente essencial, e apenas levantam a questão, por que se lhe deve
acrescentar os sacramentos. Alguns luteranos alegam que uma graça específica,
diferente da que é produzida pela Palavra é
transmitida pelos sacramentos. Isso é quase universalmente negado pelos
reformados (calvinistas), uns poucos teólogos escoceses e o doutor Kuyper
formando exceções à regra. Eles assinalam o fato de que Deus
criou o homem de tal maneira, que ele obtém conhecimento particularmente pelas
avenidas dos sentidos da visão e da audição. A Palavra está adaptada aos ouvidos
e os sacramentos aos olhos. E, desde que os olhos são mais sensíveis que os
ouvidos, pode-se dizer que Deus, ao acrescentar os sacramentos à Palavra, vem
em auxílio do pecador.
A verdade dirigida aos ouvidos através da Palavra está representada simbolicamente
nos sacramentos para os olhos. Deve-se ter em mente,
porém, que, enquanto a Palavra pode existir e também é completa sem os
sacramentos, os sacramentos nunca são completos sem a Palavra. Há
pontos de semelhança e de diferença entre a Palavra e os sacramentos.
1.PONTOS DE SEMELHANÇA. Eles concordam: (a) no autor, visto que Deus mesmo
instituiu ambos como meio de graça; (b) no conteúdo, pois Cristo é o conteúdo
central tanto da Palavra como dos sacramentos; e (c) na maneira pela qual o
conteúdo é assimilado, isto é, pela fé. Esta constitui o único modo pelo qual o
pecador pode tornar-se participante
da graça oferecida na Palavra e nos sacramentos.
2.
PONTOS DE DIFERENÇA. Eles diferem: (a) em sua necessidade, sendo que a
Palavra é indispensável, ao passo que os sacramentos não; (b) em seu propósito,
desde que a Palavra visa a gerar e a fortalecer a fé, enquanto que os
sacramentos servem somente para fortalecê-la; e (c) em sua extensão, visto que
a Palavra vai pelo mundo inteiro, ao passo que os sacramentos só são
ministrados aos que estão na igreja.
[b]B. Origem e Sentido da Palavra “Sacramento”. [/b]
A palavra
“sacramento” não se encontra na Escritura. É derivada do termo latino sacramentum
, que originariamente denotava uma soma de dinheiro depositada por duas
partes em litígio. Após a decisão da corte, o dinheiro da parte vencedora era
devolvido, enquanto que a da perdedora era confiscada. Ao que parece, isto era
chamadosacramentum porque objetivava
ser uma espécie de oferenda propiciatória aos deuses. A transição para o uso
cristão do termo deve ser procurada: (a) no uso militar do termo,
em que denotava o juramento pelo qual um soldado prometia solenemente
obediência ao seu comandante, visto que no batismo o cristão promete
obediência ao seu Senhor; e (b) no sentido especificamente religioso
que o termo adquiriu quando a Vulgata o empregou para traduzir o grego mysterion
.
É possível que este vocábulo grego fosse aplicado aos sacramentos por terem
eles uma tênue semelhança com alguns dos mistérios das religiões gregas. Na
Igreja Primitiva a palavra “sacramento” era empregada primeiramente para
denotar todas as espécies de doutrinas e ordenanças.
Por esta mesma razão, alguns se opuseram ao nome e preferiam falar em “sinais”
ou “mistérios”. Mesmo durante e imediatamente após a Reforma, muitos não
gostavam do nome “sacramento”. Melanchton empregava “signi” , e tanto
Lutero como Calvino achavam necessário chamar a atenção para o fato de que a
palavra “sacramento” não é empregada em seu sentido original na teologia. Mas o
fato de que a palavra não se encontra na Escritura e de que não é utilizada em
seu sentido original quando aplicada às ordenanças instituídas por Jesus, não
tem por que
dissuadir-nos, pois muitas vezes o uso determina o sentido de uma palavra. Pode-se
dar a seguinte definição de sacramento: Sacramento é uma santa ordenança
instituída por Cristo, na qual, mediante sinais perceptíveis, a graça de Deus
em Cristo e os benefícios da aliança da graça são representados, selados e
aplicados aos crentes, e estes, por sua vez, expressam sua fé e sua fidelidade
a Deus.
C.
Partes Componentes do Sacramento.
Devemos distinguir
três partes nos sacramentos.
1.O SINAL EXTERNO OU
VISÍVEL. Cada sacramento contém um elemento
material, palpável aos sentidos. Num sentido bem livre, este elemento
às vezes é chamado sacramento. Contudo, no sentido estrito da palavra,
o termo é mais inclusivo e denota o sinal e aquilo que é significado ou
simbolizado.
Para evitar mal-entendido, deve-se ter em mente este uso diferente. Isto
explica por que se pode dizer que um descrente pode receber, e, todavia, não
receber o sacramento. Não o recebe no sentido pelo da palavra. O objeto externo
do sacramento inclui, não somente os elementos que se usam, a saber, água, pão
e vinho, mas também o rito sagrado, aquilo que se faz com estes elementos.
Segundo este ponto de vista externo, a Bíblia denomina os sacramentos sinais e
selos, Gn 9.12, 13; 17.11; Rm 4.11.
2.A GRAÇA ESPIRITUAL
INTERNA, SIGNIFICADA E SELADA. Os sinais e selos pressupõem algo que é
significado e selado e que geralmente é chamado matéria interna do
sacramento. Esta é variadamente indicada na Escritura como aliança
da graça, Gn 9.12, 13; 17.11, justiça da fé, Rm 4.11, perdão dos pecados, Mc
1.4: Mt 26.28, fé e conversão, Mc 1.4; 16.16, comunhão com Cristo em Sua morte
e ressurreição, Rm 6.3, e assim por diante. Declarada resumidamente, pode-se
dizer que consiste de Cristo e todas as Suas riquezas espirituais. Os católicos
romanos a vêem na graça
santificante acrescentada à natureza humana, capacitando o homem a
praticar boas obras e a subir às alturas da visio Dei (visão de Deus).
Os sacramentos não significam meramente uma verdade geral, mas uma promessa
dada a nós e por nós aceita, e servem para fortalecer a nossa fé com respeito à
realização dessa promessa, Gn 17.1-14; Ex 12.13; Rm 4.11-13. eles representam
visivelmente e aprofundam a nossa consciência das bênçãos espirituais da
aliança, da purificação dos nossos pecados e da nossa participação na vida que
há em Cristo, Mt13.11; Mc 1.4, 5; 1 Co 10.2, 3, 16, 17; Rm 2.28, 29; 6.3, 4; Gl
3.27.
como sinais e selos, eles são meios de graça, isto é, meios pelos quais
se fortalece a graça interna produzida no coração pelo Espírito Santo.
3. UNIÃO SACRAMENTAL ENTRE O SINAL E QUILO QUE É SIGNIFICADO. Geralmente se lhe
chama forma sacramenti , forma dos sacramentos ( forma
significando aqui essência), porque é exatamente a relação entre o sinal e a
coisa significada que constitui a essência do sacramento.
Segundo o conceito reformado (calvinista), esta (a) não é física , como
pretendem os católicos romanos, como se a coisa significada fosse inerente ao
sinal e o recebimento da matéria externa incluísse necessariamente a
participação na matéria interna ;
(b) nem local, como a descrevem os luteranos, como se o sinal e a coisa
significada estivessem presentes no mesmo espaço, de sorte que tanto os
crentes como os incrédulos recebessem o sacramento completo ao receberem o
sinal; (c) mas espiritual , ou como o expressa Turretino, moral e
relativa ,
de modo que, quando o sacramento é recebido com fé, a graça de Deus o
acompanha. Conforme este conceito, o sinal externo torna-se um meio
empregado pelo Espírito Santo na comunicação da graça divina. A
estreita relação existente entre o sinal e a coisa significada explica o
emprego daquilo que geralmente se chama “linguagem sacramental”, na qual o
sinal é mencionado em lugar da coisa significada, ou vice-versa , Gn
17.10; At 22.16; 1 Co 5.7. <blockquote><blockquote>
</blockquote></blockquote>
D. Necessidade dos Sacramentos.
Os
católicos romanos afirmam que o batismo é absolutamente necessário para
todos, para a salvação, e que o sacramento da penitência é igualmente
necessário
para aqueles que cometeram pecado mortal depois do batismo; mas que a
confirmação, a eucaristia e a extrema unção são necessárias somente no
sentido de que foram ordenadas e são eminentemente úteis.
Por outro lado, os protestantes ensinam que os sacramentos não são
absolutamente necessários para a salvação, mas são obrigatórios em
vista
do preceito divino. A negligência voluntária do seu uso redunda no
empobrecimento espiritual e tem tendência destrutiva, precisamente
como
acontece com toda desobediência persistente a Deus. Que não são
absolutamente necessários para a salvação, segue-se: (1) do caráter
espiritual e livre da dispensação do Evangelho, na qual Deus não prende
a Sua graça ao uso de certas formas externas, Jo 4.21, 23; Lc 18.14;
(2)
do fato de que a Escritura menciona unicamente a fé como condição
instrumental da salvação, Jo 5.24; 6.29; 3.36; At 16.31; (3) do fato de
que os sacramentos não originam a fé, mas a pressupõem, e são
ministrados onde se supõe a existência da fé, At 2.41; 16.14, 15, 30,
33; 1 Co 11.23-32; e (4) do fato de que muitos foram realmente salvos
sem o uso dos sacramentos. Pensemos nos crentes anteriores ao tempo de
Abraão e no ladrão penitente na cruz.
E. Os Sacramentos do Velho e do Novo Testamentos Comparados.
1. SUA UNIDADE ESSENCIAL. Roma alega que há diferença essencial
entre
os sacramentos do Velho Testamento e os do Novo. Ela afirma que, à
semelhança de todo o ritual da antiga aliança, seus sacramentos
também eram meramente típicos. A santificação produzida por eles não
era interna, mas apenas legal, e prefigurava a graça que haveria de ser
conferida ao homem no futuro, em virtude da paixão de Cristo. Isso não
significa que nenhuma graça interna acompanhava o uso deles, mas
simplesmente
que isso não era efetuado pelo sacramento propriamente ditos, como
acontece na nova dispensação. Eles não tinham eficácia objetiva, não
santificavam o participante ex opere operato , mas unicamente ex opere operantis ,
isto é, por causa da fé e caridade com que eram recebidos. Uma vez que
a plena concretização da graça tipificada por aqueles sacramentos
dependia da vinda de Cristo, os santos do Velho Testamento foram
encerrados no Limbus Patrum (Limbo dos Pais) até Cristo os
tirar de lá. A verdade, porém, é que não há diferença entre os
sacramentos do Velho Testamento e os do Novo. Provam-no as seguintes
considerações; (a) em 1 Co 10.1-4 Paulo atribui à igreja do Velho
Testamento aquilo que é essencial nos sacramentos do Novo testamento;
(b) em Rm 4.11 ele fala da circuncisão de Abraão como selo da justiça
da fé; e (c) em vista do fato de que eles representam as mesmas
realidades
espirituais, os nomes dos sacramentos de ambas as dispensações são
utilizados uns pelos outros: a circuncisão e a páscoa são atribuídas à
igreja do Novo Testamento, 1 Co 5.7; Cl 2.11, e o batismo e a Ceia do
Senhor à igreja do Velho Testamento, 1 Co 10.1-4.
2.SUAS DIFERENÇAS FORMAIS. Não obstante a unidade essencial dos
sacramentos das duas dispensações, há certos pontos de diferença. (a)
Em Israel os sacramentos tinham um aspecto nacional em acréscimo à sua
significação
espiritual como sinais e selos da aliança grega. (b) Ao lado dos
sacramentos, Israel tinha muitos outros ritos simbólicos, tais como as
ofertas e as purificações, que no essencial concordavam com os seus
sacramentos, ao passo que os sacramentos do Novo Testamento estão
absolutamente sós. (c) Os sacramentos do Velho Testamento apontavam
para Cristo no futuro, e eram os selos da graça que ainda teriam que
ser merecidas, ao passo que os do Novo testamento apontam para Cristo
no passado e o Seu sacrifício de redenção já consumado. (d) Em harmonia
com o conteúdo total da dispensação do Velho Testamento, a porção da
graça divina que acompanhava o uso dos sacramentos do Velho Testamento
era menor do que a que atualmente se obtém mediante o confiante recebimento dos sacramentos do Novo Testamento.
F. Número dos Sacramentos.
1.NO VELHO TESTAMENTO. Durante a antiga dispensação havia dois
sacramentos, quais sejam, a circuncisão e a páscoa. Alguns teólogos
reformados (calvinistas) eram de opinião que a circuncisão originou-se
em
Israel e foi auferido deste povo da aliança por outras nações. Mas
agora é patentemente claro que esta posição é insustentável. Desde os
tempos mais primitivos, os sacerdotes egípcios eram circuncidados. Além
disso, a prática da circuncisão se acha em muitos povos da Ásia, da
África e até da Austrália, e é muito improvável que todos a tenham
derivado de Israel. Todavia, somente em Israel ela se tornou um
sacramento da aliança da graça. Como pertencente à dispensação do Velho
Testamento,
era um sacrifício cruento, simbolizando a excisão da culpa e da
corrupção do pecado, e constrangendo as pessoas a deixarem que o
princípio da graça de Deus penetrasse suas vidas completamente. A
páscoa também era um sacrifício cruento. Os israelitas escaparam do
destino dos egípcios com sua substituição por um sacrifício, que foi um
tipo de Cristo, Jo 1.29, 36; 1 Co 5.7. A família salva comeu o cordeiro
que fora imolado, simbolizando assim um ato assimilativo de fé, muito
parecido com o ato de comer o pão na Ceia do Senhor.
2. NO NOVO TESTAMENTO. A igreja do Novo Testamento também tem dois
sacramentos a saber, o batismo e a Ceia do Senhor. Em harmonia com a
nova
dispensação em seu conjunto global, eles são sacramentos incruentos.
Contudo, simbolizam as mesmas bênçãos espirituais que eram
simbolizadas pela circuncisão e pela páscoa na antiga dispensação. A
igreja de Roma aumentou para sete o número dos sacramentos de maneira
totalmente infundada. Aos dois que foram instituídos por Cristo ela
acrescentou
a confirmação, a penitência, a ordenação, o matrimônio e a extrema
unção. Ela procura base bíblica para a confirmação em At 8.17;
14.22; 19.6; Hb 6.2; para a penitência em Tg 5.16; para a ordenação em
1
Tm 4.14; 2 Tm 1.6; para o matrimônio em Ef 5.32; e para a extrema unção
em Mc 6.13; Tg 5.14. Pressupõe-se que cada um destes sacramentos
comunica, em acréscimo à graça geral da santificação, uma graça
sacramental especial, diferente em cada sacramento. Esta multiplicação
dos sacramentos criou uma dificuldade para a igreja de Roma. Geralmente
se admite que, para serem válidos, precisam ter sido instituídos por
Cristo;
mas Cristo instituiu apenas dois. Conseqüentemente, ou os outros não
são sacramentos, ou o direito de instituí-los terá que ser atribuído
aos apóstolos também. Na verdade, antes do Concílio de Trento, muitos
asseveravam que os cinco adicionais não foram instituídos diretamente
por Cristo, mas por meio dos apóstolos.
Todavia, aquele concílio declarou ousadamente que todos os sete
sacramentos
foram instituídos pessoalmente por Cristo, e, desse modo, impôs à
teologia da sua igreja uma tarefa impossível. É um ponto que
tem que ser aceito pelos católicos romanos com base no testemunho da
igreja, mas que não de vê ser comprovado.


