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Sustento e Lucro (O culpado é o mordomo!)

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Zilton Alencar
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Sustento e Lucro (O culpado é o mordomo!)

Mensagem por Zilton Alencar em Sex 16 Abr 2010, 14:00

Certa vez, em um debate no Orkut, me deparei com várias pessoas debatendo se é correto um pastor andar de carro importado, morar em mansão, ostentar riqueza etc. Não participei do tal debate, mas procurei ler as postagens feitas e pesquisar melhor em outras fontes para poder estabelecer minha posição acerca do assunto.

É evidente que não é pecado o crente ser rico, e muito menos o pastor! Mas em ambos os casos é preciso observar a fonte desta riqueza. Aquele que enriqueceu com o seu trabalho, ou após herdar bens de familiares que faleceram, não peca, desde que não ponha seu coração nas riquezas, e nem permita que o dinheiro o domine. Alguns afirmam que nem mesmo as riquezas adquiridas através de prêmios de loteria são espiritualmente lícitas, pois Deus nos ordenou que ganhássemos o pão com o suor do rosto, ou seja, através do nosso trabalho árduo. De uma forma ou de outra, somos unânimes e reconhecer que é completamente reprovável enriquecer às custas alheias, seja através da exploração, escravidão, engano, estelionato, fraude, subtração (roubo ou furto), apropriação indébita, pirataria ou através de outras práticas ilícitas e ilegais. Mas assim como é questionável e reprovável o enriquecimento às custas alheias em todos os expedientes citados acima, entendo que é igualmente reprovável constituir fortuna às custas do ministério, da igreja, dos dízimos e ofertas das ovelhas que o Senhor lhe confiou.

Compreendemos e aceitamos que os ministérios da igreja podem até ser fonte de sustento do obreiro, e muitos obtêm seu sustento através do trabalho sério que desempenham na igreja, o que é perfeitamente justo. O apóstolo Paulo, ferrenho defensor da justa remuneração aos obreiros, admoesta invocando as Escrituras que “os obreiros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicado salário, porque diz a Escritura: não atarás a boca do boi que debulha, e: digno é o obreiro de seu salário” (1 Tm 5:17-18).

Qual o obreiro que trabalha para a igreja em tempo integral e não mereça receber prebendas por este trabalho, que ao menos lhe custeiem os gastos com transporte, alimentação, vestuário, moradia digna etc? Contudo, analisando os princípios existentes nas Escrituras, entendemos que o ministério pode ser fonte de sustento do obreiro, mas jamais fonte de lucro. E há uma diferença abissal entre uma coisa e outra. O sustento visa satisfazer as necessidades básicas e naturais do homem, ao passo que o lucro visa o enriquecimento pessoal, a aquisição de bens materiais supérfluos, a ostentação da riqueza. Os obreiros do Século XXI estão convencidos e tentam convencer a todos que o ministério que lhes foi confiado por Deus é, na verdade, fonte de lucro pessoal, mas não convencem aqueles que estão vigilantes nos princípios da Palavra.

Paulo, ensinando a Timóteo, nos alerta acerca de “homens cuja mente é pervertida e, privados da verdade, supõem que a piedade é fonte de lucro...” (1 Tm 6:5 ). Observe-se que o apóstolo, ferrenho defensor de uma remuneração justa àqueles que servem ao Senhor na igreja, posiciona-se contrário ao lucro por meio da obra de Deus. Há muitos obreiros que pensam que o ministério que Deus lhes deu é a fórmula mágica para seu futuro enriquecimento. Muitos abrem igrejas no afã de não precisarem trabalhar secularmente, mas terem sustento e riqueza por meio desta obra. Líderes de ministério, pregadores ou cantores passam a mercadejar o dom que lhes foi dado (e que não é seu, mas de Deus!), esquecendo-se de que uma das primeiras orientações que Jesus deu a seus discípulos, ao enviá-los a pregar, foi “de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10:8 ). Pregadores e conferencistas “cristãos” cobram fortunas para pregar. Cantores e bandas que outrora imploravam para cantar de graça em certos eventos ou em troca de valores irrisórios, agora só o fazem recebendo um gordo cachê...

Paulo continua seu ensino: “De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo, porém, o sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Porque os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas...” (1 Tm 6:6-11).

Paulo enfatiza a piedade com contentamento! É a palavra chave! E ele deixa claro que este contentamento diz respeito a bens materiais, explicando que devemos estar felizes quando temos o sustento do pão diário e das vestes, ou seja, a provisão do básico para uma vida digna. É interessante observar que o grande apóstolo se coloca no contexto do contentamento, ao dizer “estejamos contentes”. Que lição de vida, vinda do homem que ainda n 1º Século revolucionou a Ásia e a Europa com uma obra missionária sem precedentes, nem mesmo em nossos dias! Considerando o “conjunto da obra” do apóstolo, só posso considerá-lo como um dos grandes pastores presidentes dos nossos dias, com a grande diferença que ele fez muito mais que todos, sempre foi pobre, trabalhava para não ser pesado às igrejas (1 Ts 2:9; At 18:1-3), se contentava com o sustento cotidiano e não almejava riquezas ou ostentação, enquanto a franca maioria, quase a totalidade, dos “paulos” modernos são ricos, ostensivos e cada dia mais sedentos por riqueza. Qual será a grande dificuldade destes últimos para compreenderem o princípio cristão da piedade com contentamento? Por que não se contentam com uma vida digna, com boa casa, bom carro, bom padrão de vida, mas sem ostentação? Por que não se espelham no grande apóstolo dos gentios, como ele mesmo nos orientou a fazer (1 Co 11:1)?

Agora, você deve estar se perguntando: o que tem a ver o assunto deste artigo com o seu subtítulo, “o culpado é o mordomo”?

Você se lembra dos antigos filmes de suspense e mistério, onde ocorria um assassinato e no final se descobria que o culpado sempre era o mordomo da família? A trama ficou tão manjada que todos já sabiam de antemão o final do filme... Pois bem: isto de certa forma se aplica ao nosso tema. Vejamos como:

No Evangelho de Lucas, Jesus fala por parábola sobre um mordomo (empregado-mor, colocado sobre os demais empregados da casa) a quem foi entregue a responsabilidade de cuidar dos criados do seu Senhor, dando-lhes a alimentação cotidiana — um tipo perfeito dos obreiros que o Senhor coloca à frente de Seu rebanho. Em dado momento, prevendo a demora do seu Senhor e visando tirar vantagem em relação a esta demora, ele começa a “espancar os criados e criadas, e a comer, e a beber, e a embriagar-se” (Lc 12:35-48). Trata-se de um desvio de conduta de alguém que passou a usar em benefício próprio os recursos que lhe foram confiados para, com uma administração adequada, dar sustento aos seus conservos. É assustadora a semelhança entre o mordomo da parábola e muitos pastores da atualidade que vêm enriquecendo a olhos vistos graças às ovelhas de Deus (Ez 34:1ss)! Aqueles que deveriam administrar fielmente os bens do Senhor a favor das ovelhas, para que estas não passem necessidades, usufruem destes bens e enriquecem ilicitamente, crendo piamente que estão não somente fazendo a vontade do Senhor, mas também certos da imunidade em qualquer prestação futura de contas ao rígido e justo Senhor. Basta-nos, porém, ler toda a parábola para entendermos que o dia de prestação de contas chegará, e o destino do mau servo é tenebroso.

É fato inegável que muitos pastores enriqueceram no ministério. Não esperem a citação de nomes aqui, mas a correlação será fácil, pois com certeza tanto eu como você conhecemos muitos! Alguns, ao ingressarem na obra, moravam em uma casa modesta (muitas vezes alugada), dirigiam um carro simples (quando o tinham) e levavam uma vida simplória, cheia de privações. Após o crescimento da obra que o Senhor pôs em suas mãos, passaram a dirigir carros importados do último modelo, morar em mansões, adquirir helicópteros e jatinhos, comprar propriedades no Brasil e no exterior e desfrutar de uma vida regalada. Apresentam justificativas furadas para toda esta regalia, do tipo “o homem de Deus deve desfrutar do melhor desta terra”, ou “isto foi adquirido para melhor servirmos à obra” etc. Muitos são investigados pela justiça comum por causa da sua evolução patrimonial, e então passam a se denominar “perseguidos por causa do ministério”. Observe-se que muitos nem possuem empregos seculares que justifiquem tal enriquecimento, já que a grande maioria deles se dedica exclusivamente à obra...

Em momento algum desfrutar das benesses que o dinheiro proporciona constitui-se em pecado para um crente ou para um obreiro, desde que ele as desfrute com o uso do SEU PRÓPRIO dinheiro. Posso trabalhar, prosperar, enriquecer e gastar o meu dinheiro em carros importados, viagens, roupas caras, mansões, iates... O dinheiro é meu, eu gasto da forma que eu quero! Mas não posso fazer isso com o dinheiro que pertence ao Reino de Deus, administrando-o incorretamente como se não tivesse que lhe prestar contas um dia. Conheço pastores que andam em excelentes carros, moram em casas confortáveis e têm uma vida boa graças a seus empreendimentos seculares — alguns, mais nobres, ganham tão bem secularmente que abrem mão de qualquer remuneração da igreja, ou o fazem porque são conscientes de que o caixa da igreja seria onerado se lhes fosse destinada qualquer quantia, e se satisfazem com o que já ganham em seus empregos ou negócios. Não questionamos a boa vida quando esta é patrocinada pelos próprios buon-vivants, mas questionamos os que querem ou usufruem da mesma boa vida às custas da igreja!

O pastor é o administrador da igreja, e tem em suas mãos o poder de dispor das suas finanças. O problema é como ele as administra: em benefício da igreja (principalmente dos mais pobres) ou em benefício próprio, disponibilizando a si mesmo um excelente salário e generosas prebendas, muito acima das suas reais necessidades, além da possibilidade de usufruto inescrupuloso dos bens da igreja. Isto está certo?

Os doze apóstolos também eram administradores de muito dinheiro. Os primeiros cristãos vendiam suas propriedades e depositavam tudo, altas quantias, aos seus pés, que administravam o montante com tanta responsabilidade e lisura que o texto sagrado afirma que nenhum irmão pobre tinha fome ou padecia necessidades (At 4:32-37). E olha que não se tratava de uma igrejinha de cem ou duzentos membros, mas de uma comunidade de quase dez mil pessoas! Nos dias de hoje, contudo, embora muitas vezes o caixa da igreja esteja muito bem provido, a igreja se preocupa com tudo, exceto com o sustento dos irmãos. Impérios eclesiásticos são estendidos, templos são construídos ou reformados, equipamentos são adquiridos, pastores e obreiros são esplendidamente remunerados, enquanto muitas pessoas na igreja passam privações e necessidades, têm seus serviços básicos, como água e energia elétrica, suspensos... Parece que este cuidado com as coisas e descuido com as pessoas não era a prioridade da igreja primitiva... Todos estes gastos, embora devidamente justificados e documentados, constituem-se em prioridades equivocadas, já que a Escritura demonstra que a prioridade que deve imperar na igreja é o sustento dos pobres.

A administração incorreta não significa que o administrador esteja roubando. Nem sempre. Entendo que muitos enriquecem sem nunca terem roubado um único centavo, mas quando aceitam valores salariais ou prebendas que não condizem com seu trabalho na obra, ou quando os valores recebidos são muito superiores às suas reais necessidades e chegam a ser uma afronta aos mais pobres, por mais que estes valores não sejam ilegais são imorais e amorais! Ademais, quando adquire-se um bem, mesmo que no nome da Igreja, e passa-se a usufruir do mesmo inescrupulosamente (como casas, veículos, etc), também se está cometendo um ato ilícito.

O bom senso também deve ser considerado! Como eu posso ser pastor de uma igreja onde a grande maioria de seus membros é desempregada, sub-empregada ou passa sérias privações financeiras, e receber um salário exorbitante? Onde está a minha consciência quando eu ando de carro zero importado, custeado pela igreja, e a franca maioria das minhas ovelhas anda de ônibus lotado ou a pé? Cadê o bom senso e a piedade quando eu moro em uma mansão ou em uma cobertura à beira-mar, patrimônios da igreja, adquiridos com o dinheiro dos fiéis, enquanto as ovelhas não têm um teto digno? Onde está a piedade com contentamento na minha vida??

Não sou contra, repito, que se pague um bom salário ao pastor, sempre que o caixa da igreja o permita. Sou plenamente a favor de que o obreiro tenha seu sustento garantido, dentro da realidade financeira da igreja, dos princípios do bom senso e de conformidade com as necessidades do obreiro. Sou a favor de um bom salário que satisfaça as necessidades do obreiro e ainda lhe conceda folga financeira para certos mimos, como financiar um carro melhor, adquirir algum bem para sua casa como uma boa tevê, bons eletrodomésticos etc. O que disso passar não se trata de sustento, mas de lucro inescrupuloso, de perdularismo e de irresponsabilidade na administração dos bens do Reino de Deus.

Sou contra o enriquecimento às custas da igreja! Sou contra a ostentação! Sou contra salários milionários, prebendas que são verdadeiras fortunas, uma afronta aos mais pobres, uma ostentação anticristã. Todos estes expedientes são formas de enriquecimento ilícito, que nem sempre encontram espaço punitivo na lei, mas também não encontram respaldo nem nas Escrituras e nem nos mais primários padrões de bom senso! Não é ilegal, mas é imoral e amoral. Quer sustento? Sirva a Deus fielmente na igreja, e a igreja assuma o compromisso sério com a provisão de suas necessidades básicas. Quer enriquecer, luxar, ostentar? Vá trabalhar!

Paulo em certo momento combate contra os “sanguessugas” que invadiram a igreja travestidos de irmãos, mas que só queriam sustento sem compromisso (2 Ts 3:6-12). A orientação foi clara: “se alguém não quiser trabalhar, não coma, também” (v. 10). Se Paulo orienta a igreja a ser criteriosa na distribuição de comida, como a igreja não deveria também ser criteriosa com a distribuição financeira a seus obreiros?

E o fato de Deus prometer que comeremos o melhor desta terra não justifica e nem embasa tais práticas. Analise-se o contexto da Escritura, e veremos que não se trata de UM se regalando às custas de MUITOS. Deus quer abençoar a todos, e não apenas aos pastores, obreiros e levitas. Quer enriquecer? Quer usufruir de ferraris e de mansões? É lícito! Vá trabalhar, e adquira-os licitamente, com o SEU dinheiro! E aprenda a administrar os recursos do Senhor com honestidade, lisura, seriedade e temor. É para o seu próprio bem, caro mordomo! Ou no final do filme (Mt 7:21-23), veremos que o mordomo é o culpado!

Mensagem postada no meu site pessoal: http://zilton.110mb.com
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