Caros Jefté e Pereira,
Pelo que entendi de vocês dois, livre-arbítrio é liberdade para alguma coisa. Para um, é liberdade de escolha. Para o outro, além disso, é liberdade de viver, ser e crer. Não vejo grandes problemas com essa definição, mesmo assim, façamos algumas considerações:
1. Liberdade de escolha
Que o homem faz escolhas livres, todos os calvinistas, que negam o livre-arbítrio, admitem. Pois uma escolha é livre quando não é feita sem nenhuma coerção externa. O homem de fato é livre para escolher, e sempre escolhe de acordo com a sua natureza.
2. Liberdade de viver
Se tomado em sentido de "vida independente" não existe, pois só Deus tem vida em si mesmo. Além disso, se ninguém quer morrer e se todos são livres para viver, porque não temos matusaléns nos dias de hoje?
3. Liberdade de ser
Não entendi muito bem o que ver significar isso. De qualquer forma, o homem não tem liberdade para ser o que não é, ou para deixar de ser o que é. Como disse Jesus, não podemos sequer aumentar uns palmos em nossa estatura.
4. Liberdade de crer
Todo homem é livre para crer ou duvidar (em tese, pois nem todos os países asseguram liberdade de crença). Em sentido geral, ninguém é proibido de acreditar, logo podemos admitir que tem essa liberdade.
Apesar de respeitar as definições dadas, há um possível engano nessas definições. É o de tomar "liberdade" com o sentido de "capacidade". Quando entendido como "possibilidade", tal liberdade é aceita por quem, como eu, nega o livre-arbítrio. Porém, quando se toma livre-arbítrio como liberdade entendida como capacidade, então há discordãncia. Vejamos:
1. O homem tem liberdade de escolher espiritualmente entre o bem e o mal, mas não tem capacidade de escolher o bem sem a ação decisiva da graça.
2. O homem tem a liberdade de viver espiritualmente, porém estando morto em pecados e delitos, não tem a capacidade de (re)viver por si mesmo.
3. O homem tem a liberdade de ser santo ou pecador, mas não tem a capacidade de não ser pecador. Noutras palavras ele é livre para pecar e não pecar, mas só é capaz de pecar.
4. Finalmente, o homem é livre para crer ou descrer no evangelho, mas é incapaz de crer. Ou seja, deixado por conta de seu "livre-arbítrio" o homem jamais crê no evangelho.
É isto: não existe livre-arbítrio em nenhum sentido que habilite ou capacite o homem natural a fazer boas escolhas espirituais, reviver de sua condição de defunto espiritual, ser santo como Deus requer ou crer no evangelho.
Agora, o homem tem livre-arbítrio que o capacita a pecar e pecar e pecar... mas para que serve um "livre"-arbítrio escravizado ao pecado?
Em Cristo,
Clóvis
PS.: Pereira, sobre livre-arbítrio e responsabilidade, sugiro que visite meu blog
Cinco Solas e leia os artigos que escrevi a respeito.