Espero que desta vez, com a ressurreição do FE, tenhamos aprendido a lição da primeira e nos dediquemos a assuntos mais "úteis" do que eleição, predestinação e afins. Não que o assunto seja inútil, e tenho certeza que o
Devaney também não quis dizer isso, mas é que ele atrai tanto a mente de algumas pessoas a tal ponto que elas só passam a falar nele e em mais nada, e isto, com toda razão, incomodam alguns participantes do fórum, além de gerar um trabalho árduo para a moderação, que tem que ficar lendo os mesmos tediantes argumentos toda hora, apartando brigas, dando puxões de orelhas. O assunto é realmente saboroso mas tudo tem limite. Eu sei que vai parecer irônico: quem sou eu para estar falando essas coisas!
Mas deixa eu dar a minha contribuição para o tópico.
Em primeiro lugar, quero dizer que sou menos otimista que o
Davi, que disse que
"Ela é muito clara na Bíblia, e todas as outras são interpretações forçadas de quem não aceita a soberania de Deus na salvação. Qualquer leitura natural das Escrituras nos leva à posição 5".
O que é uma doutrina clara? Para mim é uma doutrina que é aceita pela ampla maioria e que poucos poderiam negar. A Trindade, por exemplo, é uma. Ela é aceita pela ampla maioria dos cristãos.
Uma doutrina clara é aquela que você bate o olho e vê, ou pelo menos a vê depois de algumas reflexões. Não é o caso da doutrina da eleição, que divide a mente de muitos há séculos. Eu tenho quase certeza que o
Davi não pegou sua Bíblia numa bela tarde de domingo e descobriu a "clara" doutrina da eleição incondicional por conta própria. Ele provavelmente foi influenciado por um livro, um site, um irmão. Então ela não é tão clara assim, é obscura. Eu diria até que é muito obscura.
Outra coisa é que nem tudo que é claro para ele é claro para os outros. Outro poderia dizer que o oposto do que ele pensa está claríssimo nas Escrituras.
Antes de dar a minha opinião, quero compartilhar uma observação que tive ao longo de tantos debates sobre o tema. Nunca vi um único arminiano, que realmente conhece o Arminianismo, transformar-se em calvinista, nem um único calvinista, que realmente conhece o Calvinismo, transformar-se em arminiano. Geralmente muda de lado, ou quem está em cima do muro, ou quem não tem opinião nenhuma a respeito, ou quem não tem sólidos conhecimentos sobre o que crê e é levado por argumentos muitas vezes apenas aparentemente lógicos. E isto não acontece somente entre os leigos, mas entre os teólogos também. Qual defensor do Arminianismo ou Calvinismo passou a defender o lado oposto? São raros, dá pra contar no dedo. O único que me vem à mente no momento é o Clark Pinnock, que de calvinista, virou arminiano, que virou teísta aberto.
Eu sei que muitos devem estar querendo dizer "mas quase todos os calvinistas um dia foram arminianos". Eu respondo que eles pensavam que eram, quando na verdade não eram. Eles se encaixam em alguma das opções acima.
Finalmente vamos à minha opinião.
Eu vou ficar com a número 6 'outra (terá que esclarecer)'.
Terei que esclarecer mesmo? Sou obrigado?
Ok, então esclareço. Minha opinião é uma mistura da 1 com a 2, 3, 4 e 5, tirando uma palavra aqui, outra ali. Enfim, uma sopa, um balaio de gato.
A 1 porque a doutrina da eleição engloba eleição para serviço, e esta eleição, creio, é incondicional. É o caso dos apóstolos, de Paulo, da nação de Israel. Mas ela não é exclusivamente para serviço.
A 2 porque a eleição é da igreja e de quem está nela. Não é à toa que a palavra igreja em grego é 'eklesia' e a palavra eleitos é 'ekletos'.
A 3 porque a eleição individual é mediante a fé prevista e somente mediante a fé (não 'fé e obediência' como foi colocado).
A 4 porque a eleição é primariamente de Cristo e, como conseqüência, de todos os que estão em Cristo. Deus não nos escolheu à parte de Cristo. Somente somos agradáveis a Deus em Cristo. O ensino enfático de Efésios é que fomos eleitos
em Cristo. Se tivesse que abrir mão de outras para ficar com uma opção apenas, eu ficaria com esta. Desta eu não abro mão nem a pauladas.
A 5 porque a eleição foi concebida por Deus de forma incondicional. Nada impeliu, obrigou ou influenciou Deus a agir em favor do homem. No entanto, a salvação e a eleição individual são condicionais.
Colocando numa ordem eu diria:
Em primeiro lugar, a eleição de Cristo.
Em segundo lugar, a eleição da Igreja, que é o corpo de Cristo.
Em terceiro lugar, os crentes, membros desse corpo.
Para quem porventura achar que estou inventando uma nova teoria da eleição, devo dizer que este é o pensamento arminiano clássico sobre o assunto.